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Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950)

 

 “(...) Anteontem uma notícia trágica esfaqueou meu coração. Um dos filhos do meu meeiro – ele tem dez! – de quatorze anos, rapazote sacudido e trabalhador, foi carpir o catingueiro roxo que sufocava uma das casas abandonadas na baixada. Ouviu o cascavelar dos malditos crotalos e sentiu a picada no pé descalço. Cascavel. Picada mortal! Felizmente, meu amigo e vizinho, Dr. Batalha, socorreu instantaneamente o menino. Deu-lhe a injeção específica: soro antiofídico para cascavel. (...) Uma perda de tempo é a morte. Agora a finalidade imediata desta crônica: abençoar, louvar e exaltar Vital Brazil! Onde há estátua que celebre a glória de tão grande brasileiro? Para o Brasil e para a América ainda dona de tanta mata e tanta floresta, de tanto bicho e de tanta serpente, a obra de Vital Brazil é tão importante quanto a de Fleming ou do Dr. Salk. O cientista patrício é digno de estar na gratidão da humanidade como os que descobriram a penicilina ou a vacina contra a poliomielite. Se levantássemos uma estatística das criaturas que Vital Brazil salvou da morte, teríamos ideia exata da sua benemerência. Milhares e milhares de camponeses teriam morrido daquela morte horrível que é o apodrecimento, em vida, do corpo envenenado. (...) Vital Brazil é o grande benemérito. Seu nome deve ficar gravado eternamente na alma da nossa gente. Butantan, sua mansão mágica onde apurou os processos científicos de cura da intoxicação pela picada de cobra, é seu monumento. Ao ver ressuscitar o garoto, tão vivo, tão trabalhador e tão simpático, lembrei-me do que devemos ao grande cientista. E pensei na estátua que um dia será o altar de um culto: o da gratidão de todos os brasileiros. ” Menotti Del Picchia (1892-1988)1

Vital Brazil Mineiro da Campanha nasceu em 28 de abril de 1865, em Campanha, MG, e faleceu em 8 de maio de 1950, aos 85 anos de idade, no Rio de Janeiro. É o primeiro filho de Mariana Carolina Pereira de Magalhães e José Manoel dos Santos Pereira Junior. Teve 6 irmãs e 1 irmão, todos(as) com nomes2 e sobrenomes peculiares, decorrentes da imaginação de seu pai que se inspirava nas circunstâncias e nos locais de nascimento para batizá-los(as). Até os 15 anos de idade morou em diferentes cidades do sul de Minas Gerias. Seu desejo pela medicina surgiu ainda na infância, provavelmente por volta dos 7 anos, quando ocorreu um surto de varíola em Caldas e ele serviu de elemento vacinífero para o celebre médico sueco que ali vivia desde 1841, Dr. André Regnell (1807-1884)3.

Vital Brazil se tornou um dos grandes nomes na História das Ciências da Saúde, foi um dos pioneiros da Medicina Experimental no Brasil e o precursor da Toxinologia nas Américas. No entanto, mesmo já aprovado, atravessou grandes dificuldades para conseguir trabalho que garantisse recurso suficiente para se mudar para o Rio de Janeiro, na época ainda Corte do Império do Brasil, e entrar para Faculdade de Medicina. Apesar de ter intencionado pesquisar sobre o ofidismo para o seu trabalho de conclusão de curso, foi desestimulado por diversas razões por seu orientador, sobretudo, a falta de laboratório e de segurança para lidar com as serpentes. Neste período, foi um dos dois estudantes escolhidos para trabalhar em um dos consultórios mais concorridos da Santa Casa de Misericórdia, com o Dr. José Pereira Rego (1816-1892)4, Barão do Lavradio, considerado o precursor dos sanitaristas brasileiros. Este médico foi a principal referência para a conduta e escolhas profissionais de Vital Brazil.

Logo após sua formatura, em janeiro de 1892, retornou para São Paulo, e sob a orientação primeira do Dr. Cesário Motta (1847-1897)5, se engajou na estruturação de um modelo de Saúde Pública pós Proclamação da República e abraçou as causas da saúde coletiva. A partir de então, esteve na frente de combate às diversas epidemias que castigavam o país, lutou contra a febre amarela, cólera e varíola. Foi nomeado Inspetor Sanitário e comandou comissões pelo interior. Em 1895, mudou-se para Botucatu, onde em determinado dia em meio a sua rotina médica foi chamado a socorrer uma jovem picada por serpente que não resistiu e faleceu. A partir de então abraçou definitivamente o combate ao ofidismo. Em 1897, voltou para São Paulo e retomou o combate às epidemias junto aos amigos sanitaristas, entre estes, Adolfo Lutz (1855-1940), Emilio Ribas (1862-1925), Victor Godinho (1862-1922), Artur Mendonça (?-1915), José Bonilha de Toledo (1871-1903). Entrou para o Instituto Bacteriológico e dois anos depois, em outubro de 1899, foi o primeiro a diagnosticar o surto da peste bubônica na zona portuária de Santos, SP. Contraiu a doença e ao retornar para São Paulo, ainda convalescente, alguns dias depois de curado, em 4 de novembro, inicia a inoculação de cavalos para a produção de soros, ao lado do então Hospital de Isolamento, hoje Instituto de Infectologia Emilio Ribas, antes mesmo da aquisição da fazenda Butantan.

Suas pesquisas sobre os envenenamentos por animais contribuíram para o estabelecimento de um novo conceito para as ciências biomédicas, a hoje denominada, especificidade antigênica, base da Imunologia. Soube contornar as precariedades inerentes a época e venceu os grandes desafios impostos, valorizou a multidisciplinaridade e a partir de dezembro de 1899, ao fundar o Instituto Soroterápico de São Paulo, hoje Instituto Butantan, ergueu escola de referência mundial, formou pesquisadores e gerou tecnologia inovadora com seus trabalhos inéditos na produção dos soros específicos para a terapêutica dos acidentes com animais peçonhentos.

“ (...) Vital Brazil, já no começo de suas atividades no Instituto Bacteriológico em 1897, inicia o preparo de soro antiveneno ofídico, imunizando cães e cabritos com veneno de cascavel (Crotalus durissus terrificus) e jararaca (Bothrops jararaca), verificando que o soro anticrotálico dava uma pequena proteção contra o veneno de jararaca, enquanto o antijararaca não protegia nada contra o veneno crotálico; demonstrou assim a especificidade dos soros antivenenos ofídicos, noção que não existia. Foi levado a essa verificação pela observação da diferença dos quadros clínicos nos pacientes picados e animais inoculados com as duas espécies de veneno. Confirmou ainda a especificidade dos soros antivenenos quando, em 1898, experimentou o soro preparado por Calmette, não obtendo proteção contra o veneno crotálico. Demonstração de seu espírito crítico e cauteloso é que aguarda até 1901 para repetir essa experiência com o soro de Calmette, desta vez recente, pois o primeiro a ser usado tinha 2 anos de preparação e, apesar de se saber da sua conservação, cabia a dúvida de perda de atividade do soro. (...) Esse trabalho de divulgação em todos os setores, e as maneiras práticas que nele emprega fazem com que Vital Brazil consiga criar um movimento que não tinha e ainda não tem paralelo em todo o mundo na campanha da luta contra os animais peçonhentos. O Instituto Butantan, ao lado de suas numerosas atividades de pesquisa científica, nos mais diversos campos da Medicina Experimental e na produção de produtos biológicos para a Saúde Pública, sempre manteve o que foi criado por Vital Brazil (...) Pela leitura de seus trabalhos verifica-se que opiniões, conceitos e afirmações que neles se encontram são sempre fruto de numerosas experiências de laboratório, muitas vezes apenas referidas, daí pensarem muitos que Vital Brazil só deve o seu prestígio às suas atividades como fundador do Instituto Butantan e descobridor da especificidade dos soros antivenenos. Pelo pequeno sumário de uma parte dos trabalhos de Vital Brazil pode-se fazer uma apreciação de seu valor científico e de sua atividade incansável pois em todos os assuntos sobre veneno e envenenamento por animais peçonhentos estudou e experimentou, criando um grande cabedal de conhecimentos que compreendeu, organizou e difundiu.” Gastão Rosenfeld (1912 - 1990)6

Nos primeiros anos do século XX, revolucionou o acesso a informação e ao tratamento dos pacientes de envenenamentos por animais peçonhentos ao criar uma rede de cooperação com comunidades rurais a fim de promover a soroterapia antiveneno que, até os dias de hoje, salva milhares de vidas. Foi, também, pioneiro na divulgação científica e na prática da ciência cidadã. Implantou postos antiofídicos em cidades das diferentes regiões do país, sobretudo, do interior. Lançou e dirigiu periódicos referenciais para o conhecimento médico de sua época, publicou dezenas de artigos, em diferentes línguas e em importantes revistas de outros países.

Em 1917, recebeu a patente do soro antiofídico e, imediatamente, doou para benefício da população brasileira.

Destaca-se, ainda, dentre seus relevantes legados, a fundação de outra instituição científica no país, o Instituto Vital Brazil, em 03 de junho de 1919, em Niterói, por meio de parceria com o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em poucos anos, esta instituição se tornou, também, um marco de excelência do fazer científico. Vital Brazil e seus colaboradores ampliaram e fortaleceram os vínculos de cooperação que mantinham há anos com diferentes setores da sociedade. O diálogo se dava tanto com anônimos trabalhadores rurais e fazendeiros do interior do país, quanto com eminentes cientistas dos mais respeitáveis centros de pesquisa existentes no mundo. Foi no Instituto Vital Brazil que a vacina BCG foi introduzida e produzida pela primeira vez no país. Nas décadas iniciais, para além da fabricação de soros e vacinas, da prestação de relevantes serviços na área da saúde, formaram pesquisadores e desenvolveram trabalhos e estudos determinantes para o avanço dos conhecimentos médicos, farmacêuticos, biológicos, veterinários e sociais.

“ (...)rememorando nesta reunião de cientistas os serviços prestados por aquele que, como poucos, bem merece esse nome. Reconhecendo, embora, a ausência de dotes pessoais para corresponder convenientemente à confiança dos amigos do nosso homenageado, não pude recusar a incumbência, porque há honras que não se rejeitam e os méritos do Dr. Vital Brazil já estão consagrados, não precisam da nossa amizade, benevolência, e pairam acima de quaisquer favores. (...)” Emílio Ribas (1862-1925)7

Vital Brazil se casou duas vezes, teve 22 filhos, 18 chegaram a idade adulta. Foram 9 filhos(as) do primeiro casamento e 9 filhos(as) do segundo. A primeira união ocorreu em outubro de 1892, em São Paulo, com Maria da Conceição Philipina de Magalhães – Nhazinha (1877-1913), que faleceu muito jovem, aos 35 anos de idade, e a segunda em setembro de 1920, em Niterói, RJ, com Dinah Carneiro Vianna (1895-1975), primeira brasileira a presidir uma instituição científica no país.

Ao final de um programa da Rádio Nacional dedicado a contar a sua trajetória, homenagem recebida alguns poucos meses antes de falecer, Vital Brazil se pronuncia assim:

“Não tenho orgulho de minha pobre ciência, mas estou satisfeito com minha alma e o meu coração. Para uma alma bem formada, não há como fazer bem aos outros e o bem que consegui fazer é que conforta e tranquiliza meu velho coração. Obrigado, amigos.”

 

1 – Cobra - Menotti del Picchia – crônica publicada no Correio Paulistano, em junho de 1955. Paulo Menotti Del Picchia (1892-1988), ocupou a cadeira 28 da ABL - Academia Brasileira de Letras. Poeta, contista, romancista, cronista, ensaísta, jornalista, advogado e político. Estreou na literatura em 1913, foi redator-chefe e diretor de vários jornais, autor de poemas que se tornaram clássicos da literatura brasileira como Juca Mulato. Participou da Semana de Arte Moderna, sendo o responsável pela apresentação dos pressupostos estéticos do movimento modernista. Dirigiu o Serviço de Publicidade e Propaganda do Estado de São Paulo e foi deputado estadual e federal por alguns mandatos.

2 – Nomes das irmãs e irmão de Vital Brazil: Maria Gabriela do Vale do Sapucahy (Mariquinhas); Iracema Ema do Vale do Sapucahy; Judith Parasita de Caldas (Sinhá); Acácia Sensitiva Indígena de Caldas (Vidinha); Oscar Americano de Caldas; Fileta Camponeza de Caldas (Benzica); Eunice Peregrina de Caldas.

3 – Anders Fredrik Regnell (1807-1884), renomado médico e botânico sueco que viveu 43 anos no Brasil, em Caldas, MG, onde pesquisou, catalogou e classificou mais de 2.000 espécimes de plantas da região, sendo autor de um dos maiores e mais expressivos estudos botânicos do país. Escreveu, também, sobre a fauna brasileira e elaborou extensas observações geológicas e meteorológicas.

4 – José Pereira Rego – Barão do Lavradio (1816-1892), médico, da Ordem Imperial da Rosa, da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Ordem de Francisco José da Áustria. Membro Titular e aclamado Presidente Perpétuo da Academia Imperial de Medicina. Membro Correspondente da Real Academia Médica de Ciências de Lisboa, da Société Française de Hygiène e da Reale Accademia di Medicina di Torino. Foi, também, Inspetor de Saúde do Porto do Rio de Janeiro e Inspetor Geral do Instituto Vacínico; Médico Honorário da Imperial Câmara e Presidente da Junta Central de Higiene Pública. Sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Membro do Conselho Fiscal do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura e da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, Presidente e Sócio Benemérito da Sociedade Amante da Instrução e um dos Fundadores do Instituto Homeopático do Brasil. Desenvolveu e executou trabalhos determinantes no atendimento às vítimas das epidemias de cólera-morbo e no planejamento e coordenação das medidas sanitárias contra as graves epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro.

5 – Cesário Nazianzeno de Azevedo Motta Magalhães Júnior (1847-1897), médico, sanitarista, escritor e político. Entre seus amigos próximos estavam José do Patrocínio, Vital Brazil e Caetano de Campos. Defendia a ideia de que a clínica médica deveria ser o verdadeiro sacerdócio. Foi deputado republicano na Convenção de Itu, na Assembleia Constituinte, em 1891, e teve presença de destaque no parlamento. Em 1889, mudou-se para São Paulo, onde foi Secretário dos Negócios do Interior, responsável pela implantação de reformas e modelos nas áreas da Educação e da Saúde. Fundou a Escola de Farmácia, a Escola Modelo da Luz, o Ginásio do Estado, o Ginásio de Campinas, a Escola Normal de Itapetininga e criou a Biblioteca Pública na capital paulista. Regularizou o serviço de inspetoria sanitária e de vacinação. Atuou de modo incansável na luta contra as epidemias de cólera, febre amarela e varíola. Foi um dos idealizadores e sócio-fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sendo aclamado por unanimidade seu primeiro presidente. Precursor da ideia de instalação da Escola de Medicina e do Instituto de Soroterapia em São Paulo. Foi, também, eleito para Academia Paulista de Letras.

6 - Gastão Rosenfeld (1912 - 1990) Mem. Inst. Butantan, 34:X-XVI, 1969. Gastão Rosenfeld, médico e bioquímico, publicou 185 trabalhos, foi um dos descobridores da bradicinina, co-fundador da SBPC – Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, pesquisador do Instituto Butantan e diretor do Hospital Vital Brazil.

7 – Emilio Marcondes Ribas (1862-1925), médico sanitarista. Em 1898, foi nomeado diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo e ocupou o cargo durante 19 anos. Atuou intensamente para erradicar epidemias, montou comissões e distribuiu vacinas a todo estado de São Paulo. Junto a Adolfo Lutz promoveu experiências determinantes a fim de comprovar a transmissibilidade da febre amarela pelo mosquito. Colaborou para a criação do Sanatório de Campos do Jordão, para o tratamento da Tuberculose e é autor de importantes trabalhos sobre a febre amarela, a febre tifoide e a lepra.

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